A TV digital está chegando ao Brasil. Isso já estava sendo esperado há algum tempo, a questão era saber que padrão seria adotado no país entre os três já existentes: o americano, o japonês e o europeu. A grande mudança no cenário ocorreu no início deste ano, com o novo governo. No dia da sua posse, ainda em janeiro, o ministro das Comunicações, deputado Miro Teixeira, anunciou que o Brasil teria condições de desenvolver o um padrão próprio para a TV digital.
A partir daí, diversos setores ligados à ciência e à tecnologia se mobilizaram para trabalhar em prol de um Sistema de Televisão Digital Brasileiro (SBTVD). O primeiro encontro de trabalho foi um workshop promovido pela Sociedade Brasileira de Telecomunicações, na Unicamp, Campinas-SP, nos dias 11 e 12 de agosto. Os professores do departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Pará , João Crisóstomo e Aldebaro Klautau, numa iniciativa pessoal, participaram do encontro e e agora integram grupos de trabalho, que irão levantar competências na área. Até 2006, o SBTVD deverá estar implantado, com o orçamento inicial de cerca de R$ 80 milhões. O primeiro ano do projeto será dedicado à análise de alternativas para o modelo nacional de televisão digital.
Para entender como funciona a TV digital, precisa-se rever o conceito de televisão tal qual ela é conhecida hoje. A TV atual como meio, apesar da tecnologia, pouco evoluiu desde a válvula e ainda funciona como mero aparelho receptor de sinais, sem oportunizar a interação entre emissor e receptor. Isso sem falar na qualidade de imagem que ainda deixa a desejar mesmo nos modelos de TV mais modernos.
Interação - A TV digital vai além da qualidade de alta resolução de imagem e nitidez do som. Por ela o usuário terá a oportunidade de interagir, tal qual faz com a Internet, com a diferença de que terá em um único suporte o acesso à programação de TV e aos serviços da grande rede como e-mail, chats, navegação etc. "A TV digital não é apenas uma evolução tecnológica da TV analógica, mas uma nova plataforma de comunicação", diz o documento elaborado pelo CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações) e pelo Genius Instituto de Tecnologia. "Com a TV digital temos não só a qualidade de imagem, mas, e principalmente, um canal de retorno do receptor para o emissor", explica o professor Gervásio Cavalvante, professor titular do departamento de Engenharia Elétrica, do Centro Tecnológico da UFPA, e um dos coordenadores da área de propagação de um dos grupos de trabalho constituído em Campinas.
Gervásio explica ainda que a área de propagação faz parte do grupo de trabalho de Comunicações, e que este subdivide-se em mais cinco áreas: Transmissão, Modulação/Demodulação, Testes/Simulação, Canal de Retorno e Recepção/Processamento. Além desse grupo, há outros mais voltados para aplicações, serviços e conteúdos; camada intermediária de software; compressão, transmissão e rede. A UFPA está presente em três áreas e é a única da região Norte participando da discussão.
A implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital deverá também ser no futuro uma fonte de formação de recursos humanos e geração de empregos, pois a manutenção será feita por mão de obra brasileira. "O problema em adotar um padrão de fora é que ficamos inteiramente dependentes dos donos desse padrão. Assim, quem irá fazer a implantação e manutenção somos nós mesmos", enfatiza o professor Gervásio, para quem além de empregos, o projeto deverá gerar muita pesquisa, alavancando uma área que estava precisando de investimentos. "Temos a competência, por que não fazer?".